Este é o Miscelânea, por Júlio Lucas

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Orla de Salvador: barracas ao chão, prédios aos céus

A reorganização da orla poderia ser menos drástica, mais inteligente, mais humana
A demolição das barracas da orla de Salvador foi encerrada na tarde de hoje (25). O lamentável saldo para milhares de famílias que dependem deste tipo de comércio para sobreviver foi de 349 imóveis no chão. A operação executada pelos funcionários da Sucom – Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município foi acompanhada por uma força-tarefa composta por policiais federais, militares e pela guarda-municipal. Os trabalhos de destruição começaram na segunda-feira (23) e se prolongaram até esta quarta-feira (25), por voltas das 15h.
Foram derrubadas barracas nas regiões da Orla Atlântica (da Praia do Flamengo à Barra) e da Baía de Todos os Santos, na Cidade Baixa e no Subúrbio Ferroviário (de Canta Galo até São Tomé de Paripe).

Salvos pelo gongo – O desembargador Olinto Herculano, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região suspendeu temporariamente a demolição das barracas na praia de Ipitanga que ficam na área de Salvador. O Desembargador pediu mais informações da juíza Karen Almeida, responsável pelo caso, e também da prefeitura de Lauro de Freitas, que entrou com uma ação cautelar contra as demolições. Ao todo, 63 barracas estão em Ipitanga, 32 delas no município de Salvador. A prefeitura de Lauro de Freitas argumenta que mantém estas barracas em solo soteropolitano e, por isto, elas não deveriam ser demolidas.

Discordância - A operação da Sucom, cumprindo determinação do juiz Carlos D’Ávila, da 13ª Vara da Justiça Federal, está baseada no fato das estruturas das barracas demolidas terem sido feitas em área da União. O estranho é que em nota divulgada hoje (25) pela imprensa, a Marinha do Brasil nega que seja proprietária das áreas onde estavam construídas as barracas de praia de Salvador. O Comando do Segundo Distrito Naval informa que “não entrou com ação na Justiça para obter a reintegração de posse das mesmas”.  


E o próximo verão? - Agora, o que a imprensa e a comunidade soteropolitana mais questionam é como a Orla estará no próximo verão. Creio que mais importante que esta questão agora é como estarão as famílias que dependem do comércio na orla. Milhares de pessoas sem renda. É inadmissível que a Justiça e a Prefeitura Municipal de Salvador não tenham capacidade para encontrar uma solução mais inteligente, mais humana, menos drástica. Como uma requalificação por etapas, removendo os barraqueiros para novos projetos, na medida em que iriam demolindo as antigas barracas.
Assim como as imagens de hoje lembram cenas de guerra, ou uma cidade que acaba de enfrentar um tsunami ou terremoto - diante da impossibilidade da solução em tão pouco tempo - a imagem do próximo verão baiano deverá ser semelhante a um povo que tenta resistir após uma catástrofe dessa magnitude: caos e tristeza... uma orla favelizada, repleta de ambulantes instalados de qualquer maneira para conseguir sobreviver numa cidade injusta e desorganizada.


Verticalização - Em contrapartida, ao tempo em que pequenos empreendimentos vêm ao chão, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) da cidade permite a ampliação da verticalização na orla promovendo o soerguimento de muralhas imobiliárias que esbarram a ventilação, ao mesmo tempo em que sugerem a idéia de um oceano privado para turista pagar para ver e encantar a vida das classes mais favorecidas em seus modernos camarotes com vista para o mar.

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